quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Evolução Darwiniana das Culturas

Do ponto de vista Ocidental, outras culturas parecem muitas vezes serem algo de bastante exótico que tem pouco ou nada que ver com o Ocidente. A este ponto de vista subjazem duas premissas: 1) as culturas evoluem independentemente do que acontece nas outras culturas (as culturas são independentes umas das outras) e 2) a identidade de cada um é formada apenas pela cultura própria onde cada um se insere.

Ambas as premissas são falsas. Em relação à primeira premissa, as culturas evoluem consoante as oportunidades que têm. Em termos darwinianos, as culturas seleccionam, imitam e modificam as suas crenças e práticas de forma a conseguirem sobreviver. A segunda premissa é também falsa exactamente pela mesma razão: as identidades de cada um (supondo que existe uma identidade cultural) dependem da sobrevivência que cada um tem de enfrentar. Os homens agem de acordo com o seu próprio interesse que é, primariamente, sobreviver. Consequentemente, a identidade que se forma será uma melange de diferentes culturas.

Em conclusão, as culturas, pelo menos hoje, não são radicalmente diferentes porque o comportamento dos indivíduos é adaptativo. Ainda que algumas práticas e crenças pareçam ser radicais, os motivos que subjazem são muitas vezes semelhantes. Para dar um exemplo, na Nigéria estudos demonstraram que a razão pela qual se exercia mutilação genital feminina era porque quem não o fizesse tinha menos probabilidade de casar; quantos comportamentos semelhantes a este se podem encontrar no Ocidente?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Monarquia ou República?

Existe algum debate sobre qual dos regimes é melhor - monarquia ou república. Eu penso que é indiferente, se o regime não for presidencial. É indiferente porque seja um Presidente ou um Rei as decisões têm de respeitar a constituição ou a lei. Isto é, ambos têm de se seguir pelas regras do jogo e não podem sair fora delas. Além disso, em termos de funcionalidade, não se pode afirmar que as monarquias funcionem pior que as repúblicas. Há, aliás, países para todos os gostos - Dinamarca, Reino Unido, Espanha, Noruega.

Pode haver o argumento de que há um significado simbólico contra a opressão ao aceitarmos a República e não a Monarquia. No entanto, países como a Espanha, devido a contextos históricos, onde o Rei é visto como o oposto de um regime opressivo este argumento não funciona.

Pensar a cidadania, hoje.



Pensar a cidadania, hoje.1
A questão da cidadania surge-nos desde a Grécia Antiga, onde apenas os homens livres teriam acesso, sendo, por isso, considerados como cidadãos de plenos direitos, podendo exercer cargos políticos. Todavia, esta definição, tal como se apresentava, excluía elementos importantes da vida quotidiana. Tais elementos eram parte integrante e indispensável para o bom funcionamento da sociedade, a saber: as mulheres, os estrangeiros e os escravos.

Com o decorrer dos tempos a escravatura desaparecera, e só mais tarde a mulher viria a ser considerada como cidadã, ainda que, por vezes, com algumas reservas. Contudo, há ainda um elemento não menos importante na vida das comunidades, os estrangeiros.

Tendo em conta estes aspectos, afigura-se-me pertinente, pensar a cidadania no contexto actual. Para iniciar esta linha de pensamento, poderia colocar várias questões, desde: o que é, de facto, a cidadania? Que critérios empregamos para atribuir a cidadania? Quem é o cidadão pós-moderno e o que o distingue do cidadão tradicional?

Como lida o Estado com este novo cidadão que assume a hibridez da sua identidade, que reivindica o seu direito à diferença e às suas múltiplas lealdades, das quais a lealdade ao Estado é apenas mais uma?2


Poderíamos considerar a cidadania enquanto forma de concretização da ideia de comunidade bem estruturada levada à perfectibilidade, com capacidade de gerir a vontade colectiva. Daqui surge uma nova configuração e compreensão da vida pública que, tendo como base o Estado, não menospreza a vida privada.

Porém, o Estado, mesmo aquele que se proclama liberal, tem vindo a evidenciar-se na vida do cidadão. Deste modo, o indivíduo não conseguirá usufruir plenamente da sua cidadania. Assim, parece ser inevitável uma transformação da cultura política para que, desta forma, seja possível responder a questões tão prementes como a integração social, a solidariedade e a contenção do Estado. É por meio desta mudança que o cidadão se reencontra com a esfera pública, podendo, então, participar activamente enquanto legislador e detentor de direitos.

A identidade da cidadania decorre da relação entre cidadania e nacionalidade na era moderna. Tal relação surge enquanto espaço legal de direitos, dependente do Estado-nação para a concretização dos mesmos (incluindo os direitos humanos).

Na era moderna, a humanidade revela-se através da acção legal, garantida pelo Estado-nação. Contudo, e como se pôde ver ao longo da História, sempre existiram apátridas, perseguidos, refugiados. Indivíduos que não foram acolhidos por Estado algum, vendo assim negado o acesso aos seus direitos: negação da humanidade fora dos limites do Estado.3

De facto, é o Estado, enquanto soberano, que domina a cidadania, a paz ou a guerra. Mas, será possível pensar uma cidadania fora do domínio de qualquer Estado, onde haja respeito, protecção e efectivação dos direitos humanos? Podemos pensar propostas para uma ética à escala planetária, onde se faça um apelo à aceitação do outro, superando as diferenças culturais; garantindo a protecção jurídica dos direitos humanos.

Todavia, as propostas para uma solidariedade de acção global têm vindo a ser subvertidas. Veja-se, por exemplo, nos casos de intervenção humanitária, a qual depende dos Estados que a acolhem e que são confrontados com imposições externas. A intervenção militar humanitária segue alguns critérios, como por exemplo a justificação (onde a acção militar se torna justificável no âmbito de emergências humanitárias extremas); autorização (imprescindível para que a intervenção possa acontecer; deliberada num quadro global, impedindo que Estados intervenham por conta própria); conduta (toda a intervenção deve seguir um comportamento rigoroso, de modo a evitar mais danos para com os inocentes e forças adversárias).

Outra questão não menos importante é o paradigma nacional de cidadania que tem vindo a encontrar desafios, como é o caso da grande pluralidade cultural étnica e até nacional que tem vindo a modificar as características mais proeminentes de determinadas sociedades.

Da cidadania surgem, frequentemente, as ideias de inclusão e exclusão dos indivíduos, principalmente nos Estados-nação. A ideia de exclusão está, claramente, relacionada com o espaço do estrangeiro, o imigrante.

Hoje em dia, tomamos como certo que a maioria da população mundial é definida como cidadã de algum Estado. Esta suposta igualdade formal já não é mais do que uma ilusão, dado que existe uma hierarquia de Estados-nação no que concerne a aspectos fulcrais como o controlo de armamento, o direito internacional e o comércio internacional.

Pensar a cidadania na modernidade implica a inclusão de dois conceitos basilares: a nacionalidade e a imigração.

A nacionalidade faz ressurgir a ideia da nação como comunidade por excelência, a qual estabelece os critérios de admissão à cidadania na modernidade, isto é, os critérios de inclusão.

Por sua vez, a imigração denuncia a existência de uma comunidade diferente, onde cabe ao Estado, enquanto detentor jurídico e cultural dos critérios fundamentais da cidadania, o critério último de exclusão da cidadania.

Há, na época moderna, outras questões que assolam os Estados, nomeadamente o fenómeno de globalização, que traz consigo a crescente diversidade entre culturas (pluralidade humana) e por conseguinte, um grande envolvimento com o capitalismo global. Veja-se por exemplo o caso português: a crescente pluralidade humana e os contributos das mudanças jurídicas e políticas nos últimos dez anos favoreceram largamente a criação de políticas de imigração e integração. O crescente número de imigrantes leva-nos a questionar a integração política de não-nacionais. Não se trata apenas de possibilitar o acesso aos direitos sociais, mas também o acesso à vida política a todos os residentes.

Relativamente à cidadania europeia, podemos questionar-nos se esta não será, de certa forma, mais uma medida de exclusão e elitista para aqueles que já são nacionalmente excluídos.

E os cidadão europeus? Sentir-se-ão, de facto, pertencentes à comunidade europeia? A impressão que parece persistir é a de que tudo isso se encontra longe da vida quotidiana, onde a Comissão Europeia é um espaço dominado por políticos nacionais mais velhos.
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1 O artigo em estudo encontra-se presente no livro: Cidadania no Pensamento Político Contemporâneo, Coordenadora: Isabel Estrada Carvalhais, Editora Principia, 2007, ISBN 9789898131034.

2 Idem, ibidem, p. 9.
3 Idem, ibidem, p. 12.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Quanto mais Liberdade de Mercado, maior o Respeito pelos Direitos Humanos

O mercado livre, afirma-se, é inimigo dos direitos humanos. A verdade é que quanto mais fechado é o mercado, maior a violação dos direitos humanos. Isto pode ser provado pela teoria e pela prática.

Em teoria, se o mercado for livre e houver mais fluidez de capitais e movimento, existe mais liberdade; onde há mais liberdade, há menos espaço para violação de direitos. Se houvesse mais liberdade económica (consequentemente, de movimento), seria mais fácil os indivíduos fugirem a regimes que impõem regras. Isto é, a capacidade destes regimes para violar os direitos dos indivíduos é diminúida.

Repare-se, no entanto, que subjaz a esta teoria, duas concepções de intervenção estatal: uma que diz respeito a um estado forte no sentido de fazer cumprir a lei e outra que se refere a um estado forte no sentido de intervir em várias áreas da vida privada. Esta segunda categoria é aquela que controla o mercado.

Na prática, isto é evidente pelos países em que os mercados são controlados pelo estado e pelos que são controlados pelas leis do mercado. Países como a Coreia do Norte, a China ou alguns países africanos onde o estado tem mais poder é exactamente onde existe maior violação dos direitos humanos.

Mitos acerca do poder das multinacionais

Assistimos hoje a várias teorias da conspiração acerca do poder das empresas multinacionais no mundo. Afirma-se, por exemplo, que as empresas controlam secretamente a política; consequentemente, os indivíduos não têm qualquer relevância, apenas as empresas.

Esta teoria não tem qualquer sentido. Isto pode demonstrar-se com exemplos simples. Um exemplo é que as empresas não têm o poder de impor impostos aos cidadãos. Nenhuma empresa tem este poder de limitar a liberdade dos indivíduos. Além disso, os impostos são inimigos das empresas: quanto mais altos os impostos, menor é o lucro e o investimento. Se todos os governos têm este poder, então a pergunta que se coloca é: onde é que as empresas podem exercer esse poder secreto?

Outro exemplo é o facto das empresas serem sujeitas a controlo de qualidade. Qual seria a empresa que, se pudesse, fugiria às regras? Estas regras limitam as liberdades comerciais das empresas. Como é que se pode afirmar neste caso que as empresas têm mais poder que os governos?

Um último exemplo diz respeito a questões sociais: cada vez mais existem ideias progressistas: liberdade para consumir drogas, liberdade sexual, entre outros casos. Qual é o papel das empresas neste campo? Onde é que as empresas influenciam e qual o interesse para tal? Não vejo nenhum interesse da parte do Bill Gates em que haja liberdade para consumir drogas.

Em conclusão, este mito de que as empresas controlam o mundo é falso. Não existem dados que o demonstrem nem é teoricamente lógico que assim o seja. Isto não é afirmar que as empresas não controlariam o mundo, se isso fosse possível; mas a verdade é que não controlam.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Os interessantes apartes de Nozick

O livro "Anarquia, Estado e Utopia" de Nozick para além de advogar e argumentar solidamente que "o estado mínimo é o estado mais abrangente que se pode justificar", e que "qualquer estado mais abrangente viola os direitos das pessoas" (cf. p. 191), é um livro que está repleto de comentários, observações marginais e outras pérolas preciosas, como a seguinte:

"A propósito, o amor é um exemplo interessante de outra relação que é histórica, na medida em que (como a justiça) depende do que efectivamente aconteceu. Um adulto pode começar a amar outro por causa das suas características; mas é a outra pessoa, e não as suas características, o que é amado. O amor não é transferível para outra pessoa com as mesmas características, mesmo para alguém que «marque mais pontos» nestas características. E o amor persiste através das mudanças das características que lhe deram origem. Ama-se a pessoa particular que efectivamente se encontrou. Por que razão o amor é histórico, ligando-se desta maneira a pessoas e não a características, é uma questão interessante e intrigante" (cf. p. 212.)

:-)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Reflexão Ingénua sobre a Ciência


Eu acredito que a explicação última da natureza, assim como das suas leis, remontam à própria natureza da matéria e ao seu ordenamento lógico. Acredito que este ordenamento lógico é o resultado único das propriedades da matéria e subsequentemente da composição das partículas que a constituem. É por causa disto que acredito que a indução deve ser o método válido de descoberta de novas teorias, porque é o que permite que a ciência detecte os padrões da natureza revelados na experiência. Reconheço que os esforços de Reichenbach, Carnap e Hempel ainda não são suficientemente satisfatórios na procura de uma lógica indutiva mais cuidada, contudo, chamo a atenção que a indução (apesar das suas fragilidades) é algo que continua a funcionar, e também creio que irá funcionar perpétuamente. Além de que funciona tanto para o contexto de descoberta como de demarcação do que é e não é ciência, além de ser também na minha opinião a justificação das teorias.
Poder-se-ia objectar que o contexto de descoberta de novas teorias deveria pertencer ao domínio da psicologia, e que exemplo para isso tanto é o da descoberta do benzeno, fruto de um sonho de um cientista, ou até o princípio atómico encontrado já por Demócrito. Contudo, também observo que existem pessoas que acertam a chave do euromilhões e que a probabilidade de tal acontecer é de 1/76’275’360, creio que foi o que aconteceu nos exemplos dados anteriormente, pois sabemos que podem existir Crenças Verdadeiras sem estarem Justificadas.
Mas, acredito eu que devido às propriedades da matéria, assim como do seu ordenamento lógico, as leis da física só podem ser de uma maneira e não de outra, ou seja universais e necessárias, e o mesmo se diga para a química, ou para a biologia. É por isso que não creio que o contexto da descoberta deva estar separado do de justificação. Porque se a matéria, e as leis, são universais e necessárias, é lógico que a sua descoberta esteja associada logicamente com a sua justificação, da mesma forma que ao encontrar uma centena de pontos que descrevem uma recta poderei induzir uma equação (y = mx+b) e depois poderei reconstruir racionalmente os mesmos pontos.
Acredito também que a qualidade das induções que fazemos está dependente não só das nossas faculdades, mas também dos instrumentos que nos permitem fazer observações, e com isso ampliar tanto o nosso alcance como a precisão das nossas observações até à mínima partícula atómica.
Como poderia Galileu ter chegado às suas conclusões sem o seu telescópio? Como poderia Keppler ter feito uma boa indução ao descobrir as três leis fundamentais da mecânica celeste sem as observações de Tycho Brahe. Porque é que as ciências andam juntas, e dependem umas das outras? Porque é que avançam tanto linearmente como por saltos?
Porque para avançarem necessitam de determinados conhecimentos que permitam determinadas observações, que facilitem o encontro dos padrões da natureza e com isso o progresso científico. Por exemplo, como poderia a Física de Partículas avançar nas suas observações sem os avanços da mecânica, da computação ou da robótica? E como poderia avançar a Imagiologia Biológica sem os desenvolvimentos da Física de Partículas? Ou seja, é com o acumular de dados observacionais cada vez mais precisos que as ciências se inter ajudam, que o conhecimento se constrói de forma a produzirem se observações ainda mais rigorosas, que irão possibilitar novas descobertas, que por sua vez conduzirão a observações ainda mais precisas, que possibilitaram novas induções que nos ajudem na descoberta cada vez maior da natureza da matéria como do seu ordenamento lógico.
Por isso, o que eu pretendo é que a Ciência explique as propriedades da matéria que causam as leis e os padrões lógicos da natureza, e que isso pode ser realizado por um modelo verificacionista.

Ricardo Barroso

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Introdução ao Pensamento Crítico

A Filosofia é, acima de tudo, o exercício crítico de examinar, “peneirar”, “pesar” as nossas crenças sobre nós próprios e sobre o mundo. Neste exame e justificação, os argumentos devem ser suportados pelos padrões de raciocínio e “argumentação sólida”. Se um argumento é formalmente válido e as suas premissas são, igualmente, verdadeiras, então podemos dizer que o argumento é sólido. É preciso tomar em atenção que esta “argumentação sólida” é de todo contrária ao modo falacioso de pensar e ao “pensamento fechado”. As falácias são argumentos que parecem razoáveis e, por isso, tendem a persuadir-nos, mas na realidade são maus argumentos. O “pensamento fechado” não admite alternativas nem qualquer argumento ou prova contraditória; conduz apenas ao dogmatismo acrítico. Se ficarmos pelo fechamento do pensamento os sistemas de crenças ficam estagnados, pondo, assim, em causa o desenvolvimento e expansão dos mesmos; ou seja, os sistemas tornam-se uma prisão.
Face ao estagnado e asfixiante “pensamento fechado” temos o “aberto” e livre Pensamento Crítico, que é uma actividade pela qual procuramos avaliar as nossas crenças, de forma a determinar se os argumentos que usamos para as suportar são adequados. Do mesmo modo, é uma actividade iconoclasta, pois, ao pensarmos criticamente estamos a destruir ícones, ídolos, e falsas crenças.
Apontamos algumas definições históricas1 do Pensamento Crítico:


  • O Pensamento Crítico é o estudo activo, persistente e cuidado de uma crença ou de uma suposta forma de conhecimento através da análise dos fundamentos que a apoiam e das conclusões para que apontam. (John Dewey).

  • O Pensamento Crítico é um pensamento razoável e reflectido, preocupado em ajudar-nos a decidir em que acreditar ou o que fazer. (Robert Ennis).

  • O Pensamento Crítico é uma forma de pensamento – acerca de qualquer assunto ou problema – no qual o pensador melhora a qualidade dos seus raciocínios recorrendo a técnicas que lhe permitem captar as estruturas inerentes ao pensamento e impondo-lhes uma exigência intelectual elevada. (Richard Paul).

  • O Pensamento Crítico é uma interpretação e avaliação activa e competente de observações, comunicações, informações e argumentações. (Michael Scriven).

Constatamos que o Pensamento Crítico é importante, pois, ajuda-nos a “pesar” as nossas posições, crenças e expectativas, bem como a questionar crenças e posições que se tornaram fechadas. Assim, pensar criticamente “tem o valor prático de nos proteger de erros e influências alheias e de promover a autonomia e uma cidadania responsável”2.


Alguns instrumentos e ferramentas úteis ao Pensamento Crítico


Na actividade de Pensamento Crítico é importante adquirir algumas técnicas e instrumentos para analisarmos eficazmente as crenças e ideias de nós próprios e dos outros. Assim, é bastante útil saber como se estrutura um argumento, os indicadores de premissa e conclusão, a diagramação de argumentos, as razões (conjuntas, lado-a-lado, etc), os entimemas, o uso da lógica, a avaliação dos argumentos (verdade das premissas, probabilidade indutiva, relevância, total evidência), as falácias, entre outros…


Registo telegráfico de alguns instrumentos e ferramentas úteis ao Pensamento Crítico:

1. Argumentos3

Um argumento é uma sequência de enunciados na qual um dos enunciados é a conclusão e os demais são premissas, as quais servem para provar ou, pelo menos, fornecer alguma evidência para a conclusão. Muitos textos apresentam argumentos complexos, que são compostos por premissas básicas (ou suposições) e premissas não-básicas (ou conclusões intermediárias), para se inferir uma conclusão final.

2. Indicadores de Inferência4

Os indicadores de inferência são palavras ou frases utilizadas para assinalar a presença de um argumento. Existem dois tipos de indicadores: de conclusão e de premissa.
- Indicadores de conclusão: portanto, por conseguinte, assim, dessa maneira, neste caso, daí, logo, de modo que, então, consequentemente, assim sendo, segue-se que, o qual implica que, o qual acarreta que, o qual prova que, o qual significa que, do qual inferimos que, resulta que, podemos deduzir, que, etc.
- Indicadores de premissa: pois, desde que, como, porque, assumindo que, visto que, admitindo que, isto é verdade porque, a razão é que, em vista de, como consequência de, como mostrado pelo facto que, dado que, sabendo-se que, supondo que, etc.

3. Diagramas de Argumentos5

Os diagramas de argumentos são convenientes para representar as estruturas inferências. Os sinais “+” no diagrama significam “junto com” ou “em conjunção com”. As setas significam “é justificativa para”. Os números (enunciados) que não estão apontados por setas representam as premissas básicas. Os números que são apontados por setas e apontam outros representam as premissas não-básicas. As conclusões são os números simplesmente apontados por setas.

4. Vários tipos de argumentos6

Os argumentos podem ser de vários tipos: apresentando razões lado-a-lado, razões conjuntas, ou com raciocínio encadeado. Nas razões lado-a-lado (característica dos argumentos convergentes) cada premissa dá, por si só, algum suporte à conclusão; os enunciados funcionam como causas relativamente independentes para a conclusão. Nas razões conjuntas as premissas só suportam a conclusão se consideradas em conjunto. E no raciocínio encadeado o argumento segue um curso de acção determinado.

5. Enunciados implícitos (ou entimema)7

Um enunciado implícito ou entimema é “um argumento em que uma das premissas não é formulada explicitamente”8. Existem casos em que está claro que o autor espera que os leitores percebam os entimemas. No entanto, estes entimemas devem ser “lidos dentro de” um argumento se apenas eles completarem o pensamento do argumentador.

6. Lógica formal e lógica informal9

A lógica formal é o estudo das formas de um argumento, modelos abstractos comuns a muitos argumentos distintos. Um exemplo clássico é o Modus Ponens: ((p->q)^p)->q.
A lógica informal é o estudo de argumentos particulares em linguagem natural e do contexto no qual eles ocorrem.

7. Avaliação de argumentos: Verdade das premissas10

Se uma das premissas de um argumento for falsa, então não se pode estabelecer a veracidade da sua conclusão. É preciso analisar cuidadosamente cada premissa, procurando contra-exemplos, de modo a constatar se as premissas são realmente verdadeiras. Devemos suspender o julgamento e procurar evidências adicionais quando não soubermos se a premissa é verdadeira ou falsa.

8. Avaliação de argumentos: Validade e probabilidade indutiva11

Os argumentos podem ser classificados em duas categorias: indutivos e dedutivos, dependendo das suas conclusões seguirem ou não as premissas básicas. O argumento dedutivo é um argumento cuja conclusão deve ser verdadeira se as suas premissas básicas forem verdadeiras. O argumento indutivo é aquele cuja conclusão não é necessária, dada as suas premissas básicas. As conclusões dos argumentos indutivos são mais ou menos prováveis em relação às suas premissas. Assim, diferentemente dos argumentos dedutivos cuja probabilidade indutiva é sempre 1, os argumentos indutivos têm uma escala de probabilidades indutivas (forte ou fraca) e daí variam muito em fidedignidade.

9. Avaliação de argumentos: Relevância12

De modo intuitivo, a falta de relevância é precedida por certa particularidade ou descontinuidade na inferência das premissas para a conclusão. Onde as premissas são altamente relevantes, ao contrário, a inferência é natural e óbvia. Um bom argumento requer não somente premissas verdadeiras e probabilidade indutiva alta, mas também um alto grau de relevância.

10. Avaliação de argumentos: Exigência de total evidência13

É necessário analisar nos argumentos se existe alguma manipulação selectiva da evidência, uma selectividade que é ilegítima (falácia da evidência suprida). Os bons argumentos exigem a total evidência, proibindo assim qualquer selectividade no raciocínio indutivo. Deste modo, se um argumento é indutivo, as suas premissas precisam de conter todas as evidências conhecidas e que são relevantes para a conclusão.
As falácias de evidência suprimidas podem ser cometidas intencionalmente ou involuntariamente. Se o argumentador omite intencionalmente informações relevantes conhecidas, a falácia é uma fraude deliberada. No entanto, uma evidência suprimida não deve ser confundida com os entimemas (premissas implícitas). Os entimemas são suposições que o autor de um argumento pretende que o leitor as tome como certas. Pelo contrário, as evidências supridas são informações que o autor deliberadamente oculta ou involuntariamente omite.

11. Avaliação de argumentos: Falácias14


11.1. Falácias de relevância (“non sequitur” – não se segue).
11.1.1. Ad hominem – contra a pessoa.
11.1.1.1. Ad hominem ofensivo.
11.1.1.2. Culpa por associação / Envenenando o poço.
11.1.1.3. “Tu quoque” – você também.
11.1.1.4. Interesse revestido.
11.1.1.5. Ad hominem circunstancial.
11.1.2. Homem-de-palha - colocar o argumento do adversário menos plausível.
11.1.3. “Ad baculum” – recurso à força.
11.1.4. “Ad verecundiam” – apelo à autoridade (X diz P; logo P).
11.1.5. “Ad populum” – apelo ao povo (X diz P; logo P).
11.1.6. “Ad mesiricordiam” – apelo à piedade.
11.1.7. “Ad ignorantiam” – apelo à ignorância (não tem sido provado P; logo ~P).
11.1.8. “Ignoratio elenchi” – conclusão irrelevante.

11.2. Raciocínio circular – petição de princípio (quando um argumento assume a sua própria conclusão).
11.2.1. Petição de princípios epítetos – são frases que prejudicam a discussão e assim, de certo modo, assumem o ponto principal na questão.
11.2.2. Perguntas complexas.

11.3. Falácias semânticas – argumento tem múltiplos significados, vago…
11.3.1. Ambiguidade (equívoco) – multiplicidade de significados que muda durante o argumento.
11.3.2. Anfibologia – ambiguidade ao nível da estrutura da sentença.
11.3.3. Vaguidade – indistinção de significado, em oposição à multiplicidade de significado.
11.3.4. Ênfase – enfatizações que geram interpretações múltiplas.

11.4. Falácias indutivas – a probabilidade indutiva é baixa.
11.4.1. Generalização apressada – extrapolação falaciosa.
11.4.2. Analogia defeituosa.
11.4.3. Falácia do jogador (X não tem ocorrido recentemente; então, X provavelmente acontecerá logo).
11.4.4. Falsa causa – confundir uma causa com um efeito.
11.4.5. Evidência suprimida – ignorar evidências.

11.5. Falácias formais.
11.5.1. Negando a antecedente – ((p->q)^~p)->~q.
11.5.2 Afirmando a consequente – ((p->q)^q)->p.
11.5.3 Falácia de composição – atribuir a parte pelo todo.
11.5.4 Falácia de divisão – o todo pela parte.

11.6. Falácias de premissas falsas.
11.6.1. Falsa dicotomia.
11.6.2. Declive ardiloso.
11.6.3. Teoria do dominó.

12. Outros aspectos a analisar…

É precisos também sondar nos argumentos indícios de neutralidade ou falsa neutralidade; se o autor se debruça sobre um pensamento de ordem social ou mais de algo abstracto; se o assunto está no passado, presente ou futuro; qual é a agenda pessoal do autor; é necessário avaliar a credibilidade do argumento; o efeito Kuleshov15; o papel das emoções16; entre outros…


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Notas:


1 Cf. CARNEIRO, Tomás Magalhães – Curso de Pensamento Crítico Para Jovens - aprender a pensar. In: http://www.pensamentocritico.net/

2 KRIPPAHL, Ludwig – Manual de Pensamento Crítico.
In: http://centria.di.fct.unl.pt/~ludi/manualpc/cap1_V0.2.pdf , P. 6.

3 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Dennis – Lógica. ("Schaum McGraw-Hill.") Trad. Leila Zardo Puga e Mineko Yamashita. Säo Paulo: Makron Books/Editora McGraw-Hill, 1991, pp. 1-5.

4 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 6-7.

5 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 12-19.

6 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 20-21.

7 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 23-30.

8 BLACKBURN, Simon – “Entimema”. In: Dicionário de Filosofia. Lisboa: Gradiva, 1997,p. 130.

9 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., p. 33.

10 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 42-44.

11 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 45-59.

12 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 60-66.

13 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 66-72.

14 Cf. NOLT, John, e ROHATYN, Op. Cit., pp. 344-399.

15 O efeito Kuleshov relaciona-se com a forma como interpretamos de modo generalizador uma realidade a partir de um determinado indício ou contexto. É interessante que várias audiências em contextos ou com indícios diferentes fazem interpretações diferentes sobre a mesma realidade. No entanto, em pensamento crítico, não podemos aceitar nada apenas pelo seu valor facial. É necessário questionar repetidamente, estar consciente dos mecanismos de interpretação, e estar presente nos vários “teatros”…

16 É importante analisar e estar consciente da presença de emoções nos argumentos. Pois, a emotividade poderá enviesar o pensamento, e estragar o nosso discernimento. Do mesmo modo, é preciso ter consciência que a racionalidade humana não é uma ideia pura, matematizável, um modelo perfeito de pensamento (como conceptualizou Descartes e Kant). Por exemplo, com Leda Cosmides e John Tooby vimos que o pensamento não é insensível às emoções e a racionalidade não é neutra. Agora é preciso analisar se as emoções não estragam a exposição do argumento.

sábado, 24 de abril de 2010

Um pouco de Consciência em Descartes


Apesar de estarmos actualmente conscientes dos actos presentes da nossa mente, só estamos potencialmente conscientes das suas capacidades e faculdades. Descartes abre espaço para pensamentos potencialmente conscientes, expondo que as pessoas normalmente não conhecem totalmente o que crêem1, apesar de ele concordar que : “É evidente que não pode haver nada na mente, na medida em que é uma coisa que pensa, de que não se esteja consciente”2, ele imediatamente qualifica isto ao apontar que “ (…) nós não podemos ter nenhum pensamento do qual não estejamos conscientes no mesmo momento em que o estamos a ter (…)”3 isto porque muitos pensamentos não ficam retidos na memória, e por isso não julgamos estar conscientes deles. Por exemplo, nós podemos ter centenas de pensamentos a cada hora, pensamentos incontáveis que ocorrem quando dormimos, e de que não nos conseguimos lembrar. Descartes atribuiu um conceito muito interessante para a consciência, um conceito que tanto tem espaço para as percepções que passam despercebidas, porque não ficam na memoria, e para percepções que são tão pequenas e obscuras que mesmo que deixassem rasto e continuassem a afectar-nos por associação com outras percepções, não poderiam ser distintamente recordadas, diz Alanen:
“(…)the notion of thought is a simple notion that cannot be defined, it is clear on should avoid invoking consciousness as a definition of thought. I therefore take “thought” and “consciousness” to have different meanings for Descartes, and will treat “consciousness” or “immediate awareness” as a mark by which mental acts and states qualifying as thoughts are recognized and distinguished from other acts and states.”4

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1. “(…) poucos há que queiram dizer tudo o que crêem, mas também porque muitos o ignoram; pois, em virtude de a actividade do pensamento, pela qual se crê uma coisa, ser diferente daquela pela qual se conhece que se crê, muitas vezes uma não acompanha a outra.” DM 3ª 64.
2. “Quod autem nihil in mente , quatenus est res cogitans, esse possit, cujus non sit conscia(…)” Quartas Respostas. AT VII 246. Tradução do Latim de Ricardo Barroso.
3. “(…) nec ulla potest in nobis esse cogitatio, cujus eodem illo momento, quo in nobis est, conscii non simus.”Quartas Respostas. AT VII 246. Tradução do Latim de Ricardo Barroso.
4. ALANEN, L. - Descartes’s Concept of Mind. London: Harvard, 2003, p. 83.

Ricardo Barroso