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terça-feira, 15 de junho de 2010

O que é a arte?

Uma questão que sempre me interessou é "Qual é o critério ou critérios que distinguem uma boa obra de arte?" ou, simplesmente, "O que é a arte?". Para muita desilusão minha, os critérios possívies são, a meu ver, fracos e/ou contingentes. Há dois critérios principais que normalmente são evocados.

Um dos critérios é o grau de sofisticação ou de dificuldade que a obra exige. Quanto mais difícil for a técnica, melhor a obra. Há pelo menos duas razões que sugerem que este critério é falso. A primeira razão é que muitas obras normalmente consideradas como extraordinárias não requerem qualquer tipo de capacidade técnica. O exemplo mais claro é A fonte, de Duchamp. A Fonte é um urinol e nada mais. Ora, se A Fonte é considerada uma obra, este critério não pode ser verdadeiro. Ou se abandona a ideia de que A Fonte é uma obra ou a ideia de que este critério é verdadeiro. Uma vez que é praticamente unânime, entre os especialista, que se trata duma obra, deve optar-se pela segunda opção. A segunda razão pela qual o critério é falso é que não é intuitivo afirmar que a uma obra concebida no século XIV, quando as técnicas artísticas não eram tão avançadas como hoje, é uma obra menor do que uma obra do século XX.

Outro critério possível é a capacidade que a obra tem de transmitir uma mensagem ou ideia. No entanto, este critério está em grande parte sujeito à pessoa, ao contexto histórico, cultura, entre outros factores. Portanto, não é possível caterogizar uma obra com este critério por não ser possível universalizar as propriedades. Pode argumentar-se que o que interessa é a qualidade da mensagem transmitida. Mas isto depende também da pessoa que contempla a obra - não é possível universalizar as propriedades.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Consciência dos Mundos

Tendo por base a proposta epistemológica de Nelson Goodman, podemos entender que para o autor uma concepção anti-intelectualista, que opõe a arte à ciência, se torna insuportável. Então as velhas dicotomias são vencidas e mescladas. Já não encontramos a beleza, a intuição e a emoção, separadas da verdade, racionalidade e do saber. Porque nenhuma destas propriedades é privilégio nem da arte, nem da ciência.
Para Goodman a tarefa comum a ambas é a construção de mundos através de sistemas de símbolos e o valor de qualquer delas depende da correcção das construções realizadas. “Ambas podem ser correctas e incorrectas de diferentes maneiras; ambas podem ser correctas e incorrectas de diferentes maneiras; ambas podem ter um domínio de aplicação universal: para ambas existem critérios de aceitabilidade, e testes e experiências a que podem ser submetidas; em nenhum caso há garantias definitivas.”
Ora isto não significa que a arte e a ciência sejam idênticas. Unicamente, que as diferenças tradicionalmente apontadas devem ser subjugadas. Isto tornou-se sobretudo evidente com a tentativa de compreender a arte contemporânea mais recente.
“Apesar de tudo, os impressionistas, expressionistas e cubistas, e mesmo a abstracção geométrica, podiam ainda ser olhados À luz dos critérios da tradição. Mas outro tanto não acontece com os ready-made, os happenings ou a arte conceptual que se não conformam com qualquer reajustamento desses critérios.”
Assim como acontece com a física quântica, estes tipos de arte exigem categorias novas para a sua intelecção. E a diferença relevante entre a arte e a ciência deve ser encontrada nos processos simbólicos utilizados.

Ricardo Barroso
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GOODMAN, Nelson - Modos de Fazer Mundos. Porto: Edições ASA, 1995, p. 17.